sábado, 21 de novembro de 2009

Valéria

Ao fim da tarde, quando o sol deixa de queimar a terra estéril, Valéria, pontualmente, senta-se no poial da sua porta e remexe nos tempos passados. Amara um homem que não teve e teve um homem que não quis. A esse, que acabou por ser o seu e a quem depois amou ainda que sem o fogo da paixão, nunca lhe ouvira, nem nas noites mais quentes, pronunciar o nome. Fora, para ele, sempre a “rapariga”.

O pensamento foge-lhe para os tempos de moça. Sonhara tanto e concretizara tão pouco.

Nascera numa família numerosa, numa aldeia que jogava às escondidas no mapa. Do mundo pouco vira e do que vira não lhe recordava já o nome (nunca soubera juntar as letras e tinha os nomes das terras baralhados na memória) mas essa vontade de correr mundo, colara-se-lhe no corpo desde cedo e perseguira-a a vida inteira.

Já casada, tentou deixar-se de devaneios de moça ligeira e livrar-se dela. Misturou-a com a roupa suja e esfregou-a com afinco como se de uma nódoa se tratasse. Em vão. O mais que conseguiu foi fechar a vontade à chave numa caixa de bolos bonita.

Recorda agora os tempos em que o sino da igreja sabia as horas de cor e as anunciava sempre assíduo. As ruínas das casas não eram ruínas mas casas com janelas floridas e gatos ao sol. Os filhos que desejou não vieram e os dos outros foram-se, mas ainda lhes ouvia as gargalhadas. Relembra as vidas e histórias dos vizinhos que depois partiram.

Eles partiram e ela ficou, presa na vida que tem. Afinal este é o único lugar que verdadeiramente lhe pertence. É a última habitante e espera a única coisa a esperar.

A aldeia também espera, sabe que desaparecerá assim que Valéria deixar de ser Valéria e abrir, por fim, a caixa de bolos bonita.

Posted by Picasa


(retirado de anteriores Calendas)

11 comentários:

" A Invisível " disse...

Boa noite Calendas:

Este é um texto muito profundo, que tem muito que se lhe diga, nas "entrelinhas".
Gostei.Continue...

Beijinho* e bom fim-de-semana.

Carapau disse...

Blog com novo visual (digo eu) e um post já antigo (dizes tu).
Para mim também é novo, muito bom, muito bem escrito, como tu sabes.
Sempre gostei de "aldeias que jogam às escondidas no mapa", visito-as como santuários, mas digo sempre que tive muita sorte em não ter nascido lá.
No fundo alguém "teve uma vida muito difícil" e outros "tiram agora prazer disso".
Mas fico sempre com remorsos.

Calendas disse...

Tive que mudar qq coisa, lol. Não consigo estar quieta. Espero que tenham gostado da "decoração da casa".
Quanto ao texto, escrevi-o para o Iannua mas passou despercebido por lá. Foi escrito a pensar na minha avô.

maria teresa disse...

Vim retribuir a sua visita e fiquei encantada com o que nos transmite, tenho tido agradáveis surpresas pela blogosfera, leio textos maravilhosos de gente que deve ter imenso para "dar".
Espero continuar a vê-la aqui e lá, no meu cantinho, de cariz muito diferente do seu.
Bjis

Livro Branco disse...

Amei!!! Apesar de "silenciosa", sigo-te assiduamente e ler-te tem sido um prazer crescente... ;)

Calendas disse...

Maria Teresa, obrigada pelas palavras. Obviamente espero tê-la aqui mais vezes, assim como me verá por lá, lol.

Calendas disse...

Livrinho, nem sabia que andavas por aqui. Isso do silêncio, não me diz nada. Faz barulho, pá. Mostra-me que os teus passos andam por cá!

RED disse...

Adorei o "new look", dear! ;)

Calendas disse...

Muito outonal, lol. Muito melancólico como os textos que por aqui correm. Já reparaste que a ideia inicial saiu completamente furada? (vais ter de o mudar de sítio, lol)

RED disse...

Já o mudei há muito, será que não deste conta? Andas muito distraída.

cantinhodacasa disse...

Lindo, sereno, nostálgico.
Por que nos lembrámos destas cposas quando estamos de "bem" com a vida e não queremos regressar ao passado, mais puro, mais limpo, talvez mais árduo de sentimentos.
Beijinho