quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Luz

Nascera sem nome e sem nome ficara por muito tempo.

A mãe, assim que a vira, deixou cair por terra o nome há muito escolhido por não lhe parecer adequado a tamanha perfeição. Entre noites e dias, e dias e noites, remoeu o assunto mas nenhum verdadeiramente apropriado encontrou.

O marido, já cansado de chamar a miúda por menina, atirava:
- Ó mulher e se fosse Rosa ou Florbela?
- Não, dizia ela, quero um nome de mulher. Temos uma filha e não um jardim, acrescentava.

Consultaram vizinhos, familiares e amigos próximos e nenhuma das hipóteses surgidas conseguiu satisfazê-la. Na sua busca, ouviu falar de um homem que havia corrido mundo. Talvez ele conhecesse o adequado nome, pensou. Pôs pés à obra e procurou-o.

- Maria do Mar, disse ele. Do que vi do mundo, o mais bonito foi o mar.
Mas o mar não conheço eu, pensou ela. E foi embora desiludida.

Um dia, sem quê nem porquê, percebeu que no lado mais belo dos seus olhos se reflectia a imagem da filha.

Desde então, chama-lhe LUZ.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Flagrantes da vida real

Tenho um gato adolescente. O gato, como adolescente que se preze, anda confuso com o que fazer no seu futuro. Travou-se de amores pela minha profissão. Já lhe disse e repeti que não vale grande coisa e que devia e podia escolher melhor. Mas o gato, verdadeiro adolescente, não vai em conversas de adultos e resolveu "in loco" averiguar da verdade da coisa.

Passou, à minha revelia, pois então, a tarde a corrigir-me um teste. Deu-lhe voltas e mais voltas e não contente com a prestação do aluno, resolveu cortar o mal pela raiz.

E cortou-o. Cortou-o, rasgou-o e deu-lhe umas valentes fanicadas.

Só me faltava mais esta!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Perfume


A (des)propósito de um desafio lançado por uma amiga num dos comentários do post anterior.

Tom Ford é actualmente o Midas da moda. Conhecido pela forma sensual, poderosa e ousada das suas campanhas, tem o condão de transformar tudo o que toca em ouro.

Recentemente causou furor com a publicidade de um perfume masculino, estrategicamente colocado em lugares que ele não frequenta, já que prefere, por assim dizer, outras latitudes e hemisférios.



Normalmente escolhem-se motivos e cenários de acordo com a fragrância a publicitar. Tendo em conta essa máxima, pergunto-me:

a que cheirará este perfume?

domingo, 6 de dezembro de 2009

Pedidos de Natal

Agora sim, é Natal e vamos a Belém... Até o número do post está solidário com a causa.

Tenho pena do Pai Natal, está há que tempos a pedir a reforma e nada. Prometeram-lhe que era aos 80 mas como não apareceu substituto, não o deixam ir. Uma tal de Merry ainda se aprontou ao lugar, mas a gaja era uma modernaça, perdia-se pelas chaminés alheias e despediram-na por justa causa.

Sendo assim, não escrevo ao velhote. Anda tão cansado que o vento norte já o tomba e, como se não bastasse, tem uma rena doente, outra prenhe e o trenó avariado.
Portanto, apresento aqui as minhas petições, my wish list.

Ora bamo lá:

Primeiros: Viagem à Turquia a realizar na Páscoa de 2010.

Segundos: Viagem à Turquia a realizar na Páscoa de 2010. E não digam que não pedi, ou que não sei o que quero!

Terceiros: ten very nice books, de preferência romances históricos, mas aceito qualquer coisinha menos livros de auto-ajuda. Sou quase psiquiatra, psicóloga e assins, não preciso de gente estranha a ditar-me basófias.

Quartos: por esta altura já deveria ter pedido amor, solidariedade e etc, mas ainda não me apetece pensar nos outros e essas coisas já tenho, portantos, o quarto wish é um conjuntinho de contas para a minha Pandora, que aquela merda é CARA e não posso ser sempre eu a comprar! Há que haver solidariedade comigo, reparem que já escrevi o tal desejo de solidariedade.

Quintos: Que o Querido Mudei a Casa venha cá a casa decorar-me a sala que bem precisa dado o meu imenso jeito para essas lides.

Sextos: Uma lingerie assim pró sexy. Esta até pode ser dada pelo meu mais que tudo, ah, e grande parte das outras coisas também. Que se note que está aqui implícita a palavra amor, tão usual nesta época. (estas lingeries costumam ter um efeito especial cá em casa)

Sétimos: Paz, entre a minha pessoa e os queridinhos seres com quem passo 90 minutos de cada vez.

Oitos: Já chega, não? Tem de haver solidariedade e amor pelos demais, assim que não peço mais nada. O resto fica para eles.


PS. Para vocês: durante este mês, poupo-vos gramar com as canções de Natal e outras que tais.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Teresa


Admirada por onde passa, Teresa exala charme. Bonita, veste roupa de estilista de renome, pinta os lábios carnudos e as unhas compridas de vermelho e só usa saltos altos, na tentativa de alongar as suas pernas, já de si flamingulares.

Tudo condiz na sua pessoa, menos o dia e a noite.

À noite, cumprindo um ritual de anos, Teresa despe-se vagarosamente, veste uma camisa de renda vaporosa que escolhe com detalhe, perfuma-se com esmero, ajeita com carinho as duas almofadas e deita-se, deixando-se acariciar pelos lençóis de seda vermelha que usa na sua longa e semi-vazia cama de casal. E Teresa espera.

Espera por alguém que lhe troque o nome, já usado de Teresa, por outro mais suave…
- Amor.
Espera por uma carícia no cabelo, um toque no ventre, um beijo. Teresa espera e desespera.
Todas as noites, Teresa, presa na expectativa, espera. Mas o beijo não chega e a pele alheia não promete.

Uma noite Teresa cansou-se de esperar o eternamente adiado.

De manhã, a Teresa que exala charme, levanta-se e vai ao Ikea.
Compra uma cama de solteiro e uns lençóis de algodão (iguais aos que toda a gente usa).

Pelas noites, Teresa tem, agora, a cama cheia. E os seus dias condizem com as noites.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Selinhos, para que vos quero...


Custa-me dizer isto. Custa-me também não o dizer e parecer ainda mais ingrata.

Ultimamente algumas pessoas que visitam este blogue e que de alguma maneira se identificam com ele, oferecem-me, muito gentilmente é certo, uns miminhos sobre a forma de variados selos.

A verdade é que não sei o que fazer com eles porque não fazem muito o meu estilo. Custa-me não os levantar, mas levantando-os comprometo-me a seguir com a corrente e isso não me agrada. Compreendam que não é por indelicadeza nem desconsideração.


Para essas pessoas que tão gentilmente se lembraram de mim, aqui deixo também um miminho, mas sem a obrigatoriedade de o enviarem para alguém.

África Minha


Havia uma canção do extinto grupo Ouro Negro que dizia “ai, meus olhos ficaram lá”, referindo-se a África. Ficaram os deles e ficaram os meus. De mim até lá ficaram mais coisas.

Ficou-me a saudade da geografia, dos cheiros novos, da lua ao contrário, das estrelas novas, das praias paradisíacas, da fauna, da flora e acima de tudo a saudade de uma menina que não cheguei verdadeiramente a conhecer e a quem apenas vi, mas pela qual me deixei cair de amores pelos seus olhos doces.

Fará, daqui a dias, três anos que voltei de umas longas férias de sete meses passadas entre o Malawi (essencialmente), Moçambique e Zâmbia (em breves visitas). Nunca tinha ido a África, não tenho raízes em África, mas vou voltar a África.

O Malawi é diferente de qualquer um dos outros países que mencionei. No Malawi não houve guerra, até o processo de independência foi relativamente pacífico. Não foi à toa que isso aconteceu. Às vezes é bom ser pobre e não ter recursos apetecíveis para potências cobiçosas.

O Malawi é dos países mais bonitos que conheço. É tão pequeno quanto diverso. Não é um país destruído, desmembrado ou em efervescente reconstrução, é um país de uma beleza pura e dura, quase intocada. Contrariamente, Moçambique entristeceu-me pela decadência em que se encontra. Qual chaga aberta, é um país que corre ainda perigo de septicemia.