domingo, 28 de fevereiro de 2010

A caixa de música


Assim que chegava à velha aldeia, à primeira oportunidade corria para casa da sua vetusta tia. A razão primordial não era a saudade que sentia da tia, mas a saudade que tinha do objectivo mais bonito que conhecera em toda a vida.

Mal entrava em casa, cumprimentava a tia de raspão e dirigia-se à sala dos fundos. Antes de qualquer acção mais movimentada, primeiro olhava-a, como que confirmando que realmente existia. Depois, a medo, não fosse a magia quebrar-se, rodava a corda e, embevecida, deixava-se envolver pelo seu melancólico som e a sua vista perdia-se na dança da pequena bailarina que saía da caixa. Durante dois minutos e alguns segundos era feliz.

Quando a corda acabava, rodava novamente o manípulo e, mais uma vez se tornavam cúmplices. Sim, acreditava que esse era também o momento mais feliz da bailarina, os breves momentos em que a deixavam bailar, depois de tantas horas de espera.

Nunca conseguira satisfazer o desejo de vê-la bailar até ao limite do cansaço. Quase sempre a tia a interrompia e reclamava a posse da ilusão.


- Menina, isso não é para estragar. Veio de França. É muito caro e não é brinquedo de crianças.

O tempo não se detém e muito mais tarde, a filha mais velha, sabedora dos anseios maternos, calcorreou meia cidade com uma pesada caixa de música para lhe oferecer no Natal.
A mãe desembrulhou a prenda e de imediato os olhos encheram-se de lágrimas. A filha sorriu convicta da felicidade da mãe. À mãe, as lágrimas continuavam a lavar-lhe o rosto, mas, contrariamente ao esperado, de frustração e infelicidade egoístas.

À prenda, uma caixa de jóias com música, faltava o essencial da magia, a pequena e doce bailarina, vestida de tule.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Morra a data, pum, pum, pum


Uma fotografia é, supostamente, uma janela aberta. Através delas, tanto da janela, como da foto, podemos tornar nosso o que vemos. Quando uma fotografia tem data, tanto ela, como o momento a que se refere, ficam datados, impedindo, aos outros, a sua apropriação. O momento retratado torna-se apenas do fotógrafo, porque só ele esteve, naquele momento, lá.


Para os demais, é como espreitar pela janela dos outros e imiscuir-se nos seus momentos mais íntimos. Não é agradável.


Façam-me o favor de desactivaram essa aplicação. Morram as datas nas fotos! Pum!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um pouco mais de azul e eu era além, já dizia o M. Sá Carneiro que, a ver pelas fotos, sofria do mesmo mal que eu!

Não sei em que noite ou dia fui feita. Sei, apenas, que houve uma certa atrapalhação na arrumação dos meus genes. Uma vez que nasci 9 meses e um dia depois de os meus queridos progenitores se terem casado, poder-se-á ter dado o caso da arrumação ter sido feita depressinha demais. Não sei!

Sei que tenho genes de uma progenitora de fazer parar o trânsito. Loura, lindíssimos olhos verdes e uma carinha e corpo larocos que, a elas, fazia suspirar de inveja, a eles, de outras coisas.


Sei que tenho genes de um morenaço com pinta de actor que era o terror dos pais e o sonho das filhas.

Sei também que quando nasci, a minha mãe, olhando-me desconsolada, disse: queria muito ter uma menina, mas feia como esta é que não.

Sei que era para me chamar outra coisa, mas deram-me este nome, porque pelo menos tinha bela.

Sei que sempre me atribuíram as parecenças de uma avó, que nunca conheci, excepto em fotografia, mas sempre referiram que não lhe chegava aos calcanhares.

Sei que tenho um primor em forma de prima direita e com a qual dizem que sou levemente parecida (levemente, note-se).

Ainda bem que sou filha única, imagino a irmã que aí viria e a inveja que por aqui havia.

Afinal, pá, que é feito dos genes da gente bonita que tenho na família e que deviam ter passado para mim? Que é deles, pá?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gafanhotos

Chegara manso, qual gafanhoto de inverno. Fugiu-lhe ao olhar directo, pegou no jornal e sentou-se à lareira.

- Onde estiveste? – perguntou ela, secamente, enquanto dobrava as camisas.
- Pensando na vida, Natália, pensando na vida.
- E que concluíste?
- Que a pele é inútil se não fala o idioma do ardor e da água.
- Molhaste os pés e picaste-te nas ortigas?
- Não.
- És complicado, homem. Deixa-me passar a roupa.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Antes eras tão linda!

- Chega-te para lá.
- Ora essa, já nem na minha cama posso estar como quiser? E chego-me para lá, porquê?
- A tua presença atrofia-me.
- Merda de vida!
- Mais vale teres esta, que vida nenhuma. Vá, chega-te para lá.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A pele é inútil se não fala o idioma do ardor e da água.

Ensina-me o verbo, retira-me o silêncio. Leva-me ao grito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ainda a propósito do amor

Cuida do nosso filho – foram as suas últimas palavras, ditas entre golfadas de sangue.
- Não me deixes, não me deixes - repetiu ele vezes sem conta. Mas ela deixou-o, depois de pouco mais de doze anos de vida em comum.
Andou louco, perdido, meses a fio. Não cuidou dele, nem do filho e apenas disso se deu conta quando o petiz, a quem estava atribuída a tarefa de cozinheiro, se confundiu nos garrafões e cozinhou o almoço com petróleo em vez de azeite.
Isto não é vida para o meu filho. Devo-lhe isso, a ele e a ela, pensou. Vou arranjar uma mulher.

- Ó da casa?
- Ora seja bem aparecido, compadre. Que o traz por cá? - perguntou Inácio.
- Tá bom compadre? Venho apresentar-lhe uma proposta do meu compadre António – respondeu, solícito.
- Homessa, atão nem conheço o seu compadre- retorquiu Inácio.
- Conhece, quer dizer, já ouviu falar dele. Não se alembra do António do Monte Abegão, o deserdado, aquele que enviuvou, coitado, tão novo. Ficou com um gaiato numa mão e montes de dívidas na outra – arrematou Joaquim Coxo.
- Já m’alembro, o tal a quem à mulher lhe arrebentou o coração e morreu afogada no próprio sangue. Ouvi falar. Uma desgraça! Mas que me quer ele? – perguntou curioso.
- Olhe, até fui eu quem lhe dei a ideia. Sabe, o moço é de haveres, mas para já só tem dívidas à conta da doença da mulher e da casa que fez. Alembrei-me da sua Maria Perpétua. A moça não vai para nova e se calhar até lhe dava jeito o casório, - que me diz?
- Será assunto a ver.

O negócio fez-se. Maria deixava o encalho e casava-se. António recebia 40 contos e uma junta de bois e a promessa de mudança de vida.

Maria Perpétua, ansiosa esperava-o, perscrutando pelo postigo da porta. António, ao vê-la, deixou escorregar o sorriso da boca. Irra, velha e feia, pensou. Maria, ao vê-lo, pensou, bonito e novo de mais, vai-me dar demasiado trabalho.

Dormiram juntos uma vez na vida. Nunca mais repetiram, mas viveram juntos até ao fim!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A propósito do Dia dos Namorados

- Se te queres casar, casa-te, não esperes é receber heranças minhas!
A conversa terminara assim, acrescentando-se apenas o ruído de uma porta ferozmente batida.
António ruminando despautérios que não teve coragem de proferir frente ao seu pai, dirigiu-se, a passos largos, para a aldeia.
-Que te disse ele? – perguntou Carolina, ansiosa.
-Que calculas? Que me deserdava se casasse contigo – respondeu ele, cabisbaixo.
- Deixa lá. Nem só de dinheiro vive o homem, retorquiu ela com voz apaziguadora.
Talvez a conversa se tenha passado assim, ou talvez não. Não estava lá para ver e apenas sei a versão que foi passando através da família.
O meu bisavô, filho de gente abastada, prendeu-se de amores por uma criada da casa. O romance não foi aceite e ele foi impedido de casar com a pretendida, sob pena de ser deserdado se o fizesse.
Apesar desse namoro ter nascido um filho, apenas se casou com a minha bisavó depois do meu trisavô ter morrido.
Dizem que a História é cíclica, neste caso parece que o foi. O meu avô também se prendeu de amores com uma criada da casa. Mas não foi tal pai, tal filho, porque este teve mais coragem. Não lhe importaram os haveres e casou-se com a sua bela. Foi efectivamente deserdado, mas o outro irmão, mais tarde, decidiu repartir a herança equitativamente.
Foi por isso que o meu pai me colocou o apelido de Mendes, a que ele não teve direito e o pai também dele também não. Ao que parece foram filhos só de mulheres!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

12 de Fevereiro

O tempo passa.
Hoje, eu e o meu ressonador, fazemos 27 anos de casados. Tanto ele como eu temos mais anos de casados do que de solteiros. Eu tenho mais 11 de casada que de solteira e ele mais 6. Atendendo a que tenho 43 (quase no fim) e ele 48, calculem a idade em que demos o nó. Como diz o meu sogro, em dias bem dispostos: - tá bonita a parte, tá!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A arte do bom roncar ou a odisseia de um ouvinte

Gosto especialmente de ouvir um bom ressonador!

Em vez do monótono e manso silêncio nocturno, o ronco alheio, muito mais interessante, conduz-me a paragens longínquas.

Imagino selvas cheias de canibais que me perseguem, acompanhados pelo alarido estonteante dos tambores. Imagino famílias inteiras de leões famintos que rugem, ferozes. Imagino a algazarra das hienas e o estridor dos hipopótamos.

Outras vezes, vou para outras paragens, embalada por sons e ritmos diferentes. Nessas, imagino que estou no do Carnaval do Rio, ou mesmo na festa de Passagem de Ano do Alberto J. Consigo até imaginar a cor dos foguetes. Noutras, ainda mais divertidas, lanço foguetões para o espaço.

Se não fossem estes sons, viajaria apenas meia dúzia de vezes por ano. Assim, viajo assiduamente todas as noites.

Pena que não viajemos juntos. Viaja um para cada lado!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Taras e manias

Para “descuriosar” a minha amiga Maria Teresa (nome fino, este) dos Beijinhos Embrulhados que me lançou o repto de desembrulhar cinco manias minhas, aqui vai:

1ª – Nunca começar um livro e deixar de o ler até ao final. Esta não deve ser mania, deve ser mas é uma tara valente, porque já me custou muitos amargos de boca (de olhos, literalmente), dada a péssima qualidade de alguns. No entanto, quero dar sempre ao escritor o benefício da dúvida e quem se lixa, normalmente, sou eu, porque se há tanta escolha, porque tenho de perder tempo com os maus? É tara, pois é, mas já tinha avisado!

2ª – Cortar o cabelo, quando já passou a fase pior do crescimento da minha trunfa. E ponham trunfa nisso! Cada vez que vou ao cabeleireiro hei-de encontrar sempre um engraçadinho que me diz que tenho melena de modelo e que é uma pena não o deixar crescer que ia ficar tão lindo. Não sabem eles o trabalho que dá ter mais 50% de cabelo que as outras pessoas e não ter jeitinho nenhum para as artes cabelereiricias, lol.

3ª – Adormecer com a televisão ligada. Parece que esta mania é genética, uma vez que “contagiou” a minha prole. Mas os Senhores da Luz andam contentes!

4ª – Querer que toda a gente prove o que eu mais gosto. Esta não é genética, lol, e até ficam chateados comigo cá em casa. Mas que culpa tenho eu de querer que gostem do que é bom? Não percebo! Também gosto de provar as coisas dos outros, facto que também parece não agradar. Acho que sou a única que não sou egoísta, lol.

E sai a última, mas não menos importante. Tenho a mania de ser mandona e de não gostar de trabalhar em grupo. Talvez seja tara de filha única, ou não!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

La Farmville et moi

Até há um minuto atrás pertencia à associação “FarmVille dependentes anónimos de Portugal”, agora que o divulguei deixei de ser anónima, mas nem por isso menos dependente.

Eu, I, je, yo, ego, (não acrescento mais línguas porque me falta sabedoria para tal) me confesso: sonho com aumentar quintas, apanhar frutas, ordenhar vacas, cabras, apanhar ovos, cultivar e recultivar terrenos…

Eu, que na realidade, não tenho horta, não tenho animais domésticos e tenho um jardim mal tratado. Eu, que nada mais joguei na vida do que uma boa suecada de quando em vez, vejo-me agora perdidamente embrenhada nestes imbróglios virtuais.
O mais caricato da questão é que estou tão viciada que até pergunto aos meus fregueses quem joga Farmville, com o intuito de conseguir vizinhos (imprescindível no jogo).

Ego, Calendas, a quem o tempus fugit normalmente, aqui me confesso e aqui prometo nunca pôr um pé num casino, porque já se viu a minha raça.

Agora que estou com a alma mais leve, vou ver as minhas culturas virtuais…

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A janela fechada

O homem acorda ao sentir dentro si um revolver intenso, como se algo o chamasse desesperadamente. Já não era a primeira vez que isto lhe sucedia, mas ficava sempre assustado. Tentou, infrutiferamente, acalmar-se. Desta vez a sacudidela interior era mais forte, mais intensa, como se existisse outro ser dentro de si, agora com uma voz nova, mais forte, mais urgente. Era uma voz feita de longos silêncios. Era uma voz de conflitos. Era a voz do tempo. Era a voz do sonho.
Foi então que voltaram as imagens. Imagens de tempos antigos onde a própria memória se perde. Voltou àquela casa distante da sua infância. Havia vozes que murmuravam atrás das paredes e que o incitavam a escutá-las. Detém-se uns instantes, encolhe-se, pressentindo um perigo já conhecido, enquanto as ouve sussurrando:
- nunca espreites pelas janelaasssssssss… nuncaaa espreiteeessssss. Atrás das janelas está o vento e o vento é um monstro feito de ar que te agarra, te leva e não voltas nunca mais.
Sempre esteve atento aos sons da penumbra, sempre fez o que lhe pediam e nunca, nunca em toda a sua vida, olhou através de uma janela.
Perdeu, assim, o outro lado das coisas.
Agora assaltam-no, entontecendo-o, as recordações do seu primeiro e único amor.
Mais tarde, chegou até a rejeitar o amor.
Um dia viu-a, navegando dentro de um vestido azul, mesmo ao lado de sua casa. Habituaram-se a descobrir-se nas manhãs ensolaradas. Com as primeiras chuvas chegou também o amor. E com o amor, as ameaças de sua mãe. Continuaram a ver-se às escondidas, mas foi fugaz essa alegria. Um dia alguém os viu beijando-se no recato de uma sombra e pouco depois já todos sabiam. Como sempre, a ameaça chegou para resolver tudo. Bastou isso para deitar ao chão o incipiente sonho. O sonho foi-se junto com o amor. Tampouco lutou por ele.
Neste momento continua deitado na cama com vontade de morrer. O seu tumulto interior intimida-o e apenas deseja que desapareça.
Não sabe que são os últimos resquícios do sonho esperando por uma janela.
Sempre desconhecerá de que é feito o sonho. Nunca saberá sequer que um dia sonhou olhar através de uma janela. Somente espera pela morte. Sabe que virá e não necessita mais.
Resta saber se, morto, descobriu que nem sequer havia vivido.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O dia mais injusto

Vivi o dia mais injusto da minha vida com sete anos mal medidos.

Fiz a primeira e parte da segunda classe numa escola primária de Matosinhos. Um dia, andava eu já na segunda classe, a professora pediu à minha colega de carteira que fosse ao quadro fazer uma conta de multiplicar. A Ana, assim se chamava, não era muito dada às lides escolares e, bloqueada, não despachava o serviço. A professora, no fundo da sala, impaciente, incitava-a a continuar.
A Ana, augurando, no mínimo, reprimendas várias, ficava cada vez mais nervosa. A minha colega da carteira da frente, Cecília, movida pela compaixão, começou a ditar baixinho os números que a Ana deveria escrever no quadro. Número após número a conta ia surgindo, compostinha.
Talvez o espírito santo de orelha tivesse sussurrado mais alto, o certo é que a professora se apercebeu do facto e rapidamente se ouviu a sua voz já alterada:
- Anabela, cala-te.
Ora eu, estava calada e permaneci calada. E a Cecília, movida pelos mais altos sentimentos, continuou:
- bota um cinco.
- Anabela, já te disse que te calasses.
E a Cecília continuava, querendo levar a bom porto tão difícil problema de cálculo.
- Bota um três.
Zangada, a professora, aproximou-se de mim, e perguntou-me a viva voz se não me tinha já mandado calar.
Encolhida, respondi-lhe:
- Senhora professora, mas não era quem estava a falar.
- Pois agora é que vais levar, responde ela. Não gosto de mentirosas, acrescenta.
Seu dito, seu feito. Espetou-me duas reguadas que me doem até hoje.
Mas o dia não acabou aí.
Na volta para casa, resolvi afastar o stress passando por cima de uma tábua que oscilava encima de uma fossa que estava a meio limpar. Um dos meus colegas mais "perversos", achando a altura ideal, deu-me um empurrãozito solicito. O equilíbrio foi-se e catrapuz. Quase que aprendi a nadar!
Depois da luta para sair da fossa, lá fui estrada acima, pingando e tresandando. Chego a casa e ainda ouvi sermão e missa cantada da minha mãe.

Ora, convenhamos que é demasiado para um dia só. Nem sei como não fiquei traumatizada, nem pedi apoio jurídico, mas a minha vida nunca mais foi a mesma, lol.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Luz

Nascera sem nome e sem nome ficara por muito tempo.

A mãe, assim que a vira, deixou cair por terra o nome há muito escolhido por não lhe parecer adequado a tamanha perfeição. Entre noites e dias, e dias e noites, remoeu o assunto mas nenhum verdadeiramente apropriado encontrou.

O marido, já cansado de chamar a miúda por menina, atirava:
- Ó mulher e se fosse Rosa ou Florbela?
- Não, dizia ela, quero um nome de mulher. Temos uma filha e não um jardim, acrescentava.

Consultaram vizinhos, familiares e amigos próximos e nenhuma das hipóteses surgidas conseguiu satisfazê-la. Na sua busca, ouviu falar de um homem que havia corrido mundo. Talvez ele conhecesse o adequado nome, pensou. Pôs pés à obra e procurou-o.

- Maria do Mar, disse ele. Do que vi do mundo, o mais bonito foi o mar.
Mas o mar não conheço eu, pensou ela. E foi embora desiludida.

Um dia, sem quê nem porquê, percebeu que no lado mais belo dos seus olhos se reflectia a imagem da filha.

Desde então, chama-lhe LUZ.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Flagrantes da vida real

Tenho um gato adolescente. O gato, como adolescente que se preze, anda confuso com o que fazer no seu futuro. Travou-se de amores pela minha profissão. Já lhe disse e repeti que não vale grande coisa e que devia e podia escolher melhor. Mas o gato, verdadeiro adolescente, não vai em conversas de adultos e resolveu "in loco" averiguar da verdade da coisa.

Passou, à minha revelia, pois então, a tarde a corrigir-me um teste. Deu-lhe voltas e mais voltas e não contente com a prestação do aluno, resolveu cortar o mal pela raiz.

E cortou-o. Cortou-o, rasgou-o e deu-lhe umas valentes fanicadas.

Só me faltava mais esta!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Perfume


A (des)propósito de um desafio lançado por uma amiga num dos comentários do post anterior.

Tom Ford é actualmente o Midas da moda. Conhecido pela forma sensual, poderosa e ousada das suas campanhas, tem o condão de transformar tudo o que toca em ouro.

Recentemente causou furor com a publicidade de um perfume masculino, estrategicamente colocado em lugares que ele não frequenta, já que prefere, por assim dizer, outras latitudes e hemisférios.



Normalmente escolhem-se motivos e cenários de acordo com a fragrância a publicitar. Tendo em conta essa máxima, pergunto-me:

a que cheirará este perfume?

domingo, 6 de dezembro de 2009

Pedidos de Natal

Agora sim, é Natal e vamos a Belém... Até o número do post está solidário com a causa.

Tenho pena do Pai Natal, está há que tempos a pedir a reforma e nada. Prometeram-lhe que era aos 80 mas como não apareceu substituto, não o deixam ir. Uma tal de Merry ainda se aprontou ao lugar, mas a gaja era uma modernaça, perdia-se pelas chaminés alheias e despediram-na por justa causa.

Sendo assim, não escrevo ao velhote. Anda tão cansado que o vento norte já o tomba e, como se não bastasse, tem uma rena doente, outra prenhe e o trenó avariado.
Portanto, apresento aqui as minhas petições, my wish list.

Ora bamo lá:

Primeiros: Viagem à Turquia a realizar na Páscoa de 2010.

Segundos: Viagem à Turquia a realizar na Páscoa de 2010. E não digam que não pedi, ou que não sei o que quero!

Terceiros: ten very nice books, de preferência romances históricos, mas aceito qualquer coisinha menos livros de auto-ajuda. Sou quase psiquiatra, psicóloga e assins, não preciso de gente estranha a ditar-me basófias.

Quartos: por esta altura já deveria ter pedido amor, solidariedade e etc, mas ainda não me apetece pensar nos outros e essas coisas já tenho, portantos, o quarto wish é um conjuntinho de contas para a minha Pandora, que aquela merda é CARA e não posso ser sempre eu a comprar! Há que haver solidariedade comigo, reparem que já escrevi o tal desejo de solidariedade.

Quintos: Que o Querido Mudei a Casa venha cá a casa decorar-me a sala que bem precisa dado o meu imenso jeito para essas lides.

Sextos: Uma lingerie assim pró sexy. Esta até pode ser dada pelo meu mais que tudo, ah, e grande parte das outras coisas também. Que se note que está aqui implícita a palavra amor, tão usual nesta época. (estas lingeries costumam ter um efeito especial cá em casa)

Sétimos: Paz, entre a minha pessoa e os queridinhos seres com quem passo 90 minutos de cada vez.

Oitos: Já chega, não? Tem de haver solidariedade e amor pelos demais, assim que não peço mais nada. O resto fica para eles.


PS. Para vocês: durante este mês, poupo-vos gramar com as canções de Natal e outras que tais.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Teresa


Admirada por onde passa, Teresa exala charme. Bonita, veste roupa de estilista de renome, pinta os lábios carnudos e as unhas compridas de vermelho e só usa saltos altos, na tentativa de alongar as suas pernas, já de si flamingulares.

Tudo condiz na sua pessoa, menos o dia e a noite.

À noite, cumprindo um ritual de anos, Teresa despe-se vagarosamente, veste uma camisa de renda vaporosa que escolhe com detalhe, perfuma-se com esmero, ajeita com carinho as duas almofadas e deita-se, deixando-se acariciar pelos lençóis de seda vermelha que usa na sua longa e semi-vazia cama de casal. E Teresa espera.

Espera por alguém que lhe troque o nome, já usado de Teresa, por outro mais suave…
- Amor.
Espera por uma carícia no cabelo, um toque no ventre, um beijo. Teresa espera e desespera.
Todas as noites, Teresa, presa na expectativa, espera. Mas o beijo não chega e a pele alheia não promete.

Uma noite Teresa cansou-se de esperar o eternamente adiado.

De manhã, a Teresa que exala charme, levanta-se e vai ao Ikea.
Compra uma cama de solteiro e uns lençóis de algodão (iguais aos que toda a gente usa).

Pelas noites, Teresa tem, agora, a cama cheia. E os seus dias condizem com as noites.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Selinhos, para que vos quero...


Custa-me dizer isto. Custa-me também não o dizer e parecer ainda mais ingrata.

Ultimamente algumas pessoas que visitam este blogue e que de alguma maneira se identificam com ele, oferecem-me, muito gentilmente é certo, uns miminhos sobre a forma de variados selos.

A verdade é que não sei o que fazer com eles porque não fazem muito o meu estilo. Custa-me não os levantar, mas levantando-os comprometo-me a seguir com a corrente e isso não me agrada. Compreendam que não é por indelicadeza nem desconsideração.


Para essas pessoas que tão gentilmente se lembraram de mim, aqui deixo também um miminho, mas sem a obrigatoriedade de o enviarem para alguém.